segunda-feira, 14 de junho de 2021

Tenho medo da balança.

 Quem ler isto vai automaticamente imaginar alguém acima do peso, ou alguém que queira emagrecer. 

Eu tenho medo da balança e não sou o que imaginam.  

 

Se disser isto em frente a alguém, o mais provável é a pessoa achar-me louca e elogiar-me pelo meu corpo magro. Mas a magreza excessiva passa de bonita a doentio. 

Tenho medo do limite do meu corpo. Sinceramente tenho medo de mim... já não controlo o meu corpo há 1 ano e não tenho visto melhoras. 

Doí-me a barriga cada vez que os meus pais dizem “Vamos ver quanto é que pesas hoje!” e quando tenho o mesmo peso ou inferior chego a ouvir “Ainda vais ser internada!” ... Infelizmente acho que os meus pais estão tão assustados comigo que nem pensam no que dizem nestas alturas, mas estas reações são sem dúvidas as piores que alguém pode receber. Não me ajuda! Destrói-me ainda mais. 

A comida assusta-me como nunca... “será que vou ficar maldisposta se comer isto?” 

 

E agora penso, será que as pessoas sabem sequer que o medo da balança dá para os dois lados? 

 

Será que sabem que ser-se magra tem o seu lado horrível? 

Eu não escolhi ser magra... e estou assim porque a vida o quis. 

 

Agora, será que as pessoas que disseram que queriam ter um corpo igual ao meu, ainda querem? 

 

Deem graças aos vossos corpos e não invejem o de ninguém porque as vezes “a pessoa do corpo bonito” também tem medo da balança.

De um lado ouve-se "es tao magra, quem me dera ter o teu corpo", mas de outro ouve-se "es tao magra, tens de comer mais". Nao é uma questao de simplesmente abrir a boca e comer mais como as pessoas acham. Há todo um tratamento mental para este problema.

 

Felizmente a minha cabeça ainda está no sí

domingo, 13 de junho de 2021

O que é “Deus”?

Em tempos fui cristão praticante, era uma pessoa que tinha o costume de ir à missa todos os domingos em busca de alguma paz interior. O curioso é que sempre que estava na “casa de Deus” eu pensava em tudo menos nele. Questionava-me o que era a Fé e o que é Deus. Cheguei a colocar situações hipotéticas de que eu vivia numa simulação ou que estava num sonho infinito que nunca mais acabava e até hoje é algo que me intriga.

No verão de 2020 dei por mim com um céu muito bonito à noite. E de um momento para o outro mudei de religião.

A religião não tem que forçosamente ter uma prática associada ou um padre. Assim como a pergunta certa a ser feita não é “Quem é Deus”, mas sim “O que é Deus”.

Deus posso ser eu, pode ser um ser que não se vê, pode ser uma força, pode ser o destino, pode ser a nossa mãe ou até um dos 7 pecados capitais. O que é certo é que o Ser Humano move-se consoante as suas crenças, sejam elas espirituais ou não.

Um atleta de alta competição pode meter todo o seu destino num Deus que lhe dá dádivas se houver sacrifícios e com isso ele deixa o seu talento nas mãos de algo ou alguém (que nem ele próprio conhece ou sabe da sua existência). Outro atleta acredita que ele é o seu Deus e que ele próprio é que reúne as forças necessárias para vencer, mas que tudo depende dele e só dele.

O Homem é movido não pela energia dos alimentos, mas sim pela energia da fé, seja ela espiritual ou não.

A não tão minha realidade

 

Inúmeras vezes, ao longo da minha vida, já me senti afastada do que realmente importa. Acho que todo mundo já se sentiu assim. É um sentimento estranho onde parece que os dias passam, as vezes até rápidos demais, enquanto assisto do banco do passageiro. Nas discussões sobre alienação, me assustei com o quanto algumas coisas das quais falamos se tornavam presentes na minha vida. Reparei nas distrações em que me envolvia, sempre à procura de me manter ocupada, com coisas que já estão “pré-escolhidas” para mim. Me distraio com o consumo,  e muitas vezes, senão sempre, o mesmo que multidões consomem. Reparei que quando vou fazer algo de produtivo seja um trabalho da faculdade, lavar a louça, arrumar a casa, não o faço sem assistir um episodio de uma serie, um vídeo no youtube ou qualquer outro tipo de coisa que divida minha atenção. Um escape talvez?

Chegamos a discutir em aula, o sucesso dos filmes de heróis, os filmes surreais que mostram galáxias distantes em 3D e de como na época dos filmes de western que contam as histórias dos cowboys dos EUA fizeram sucesso em países que nem partilhavam da mesma cultura. Pergunto se também não seria alguma forma de escape da vida real, da mesma forma que tento me distrair diariamente com coisas fora da minha realidade, com séries sobre uma vida que não é minha e vídeos sobre objetos que não possuo, e que de alguma forma me tentam dizer que é algo que preciso ter ou alcançar. Então alienação me pareceu encaixar perfeitamente, digo, faz sentido, não faz? A vida que vivo é realmente minha, é realmente a minha essência e minha vitalidade, ou apena um reflexo do que eu consumo diariamente e na verdade, bem distante daquilo que verdadeiramente sou.

Quando eu era mais nova, lembro muito bem de como me sentia depois de assistir um filme no cinema, bem, de como o personagem principal se sentia e não eu. Me relacionava muito com aquela realidade alternativa e me identificava com história, por mais que fosse um filme de agente secretos e eu tivesse 13 anos de idade. Meus pais sempre acharam graça, coisa que na época eu nem reparava que fazia, de quando eu chegava em casa depois de assistir um filme sobre luta nos cinemas e queria me tornar lutadora, ou quando era um filme de romance e eu queria escrever um poema, ou aquela vez em que um filme de super-heróis passou na televisão e eu pulei do sofá achando que iria voar. E se de lá para cá isso não mudou muita coisa? Por mais que não seja mais criança e não invente extremas fantasias na minha cabeça e já não tente desvendar um caso não existente após assistir um filme investigativo, o que eu consumo ainda me influência constantemente e fortemente, mas ao mesmo tempo com tal sutileza de maneira que me faça afastar cada vez mais de mim mesma sem que eu perceba.

domingo, 6 de junho de 2021

 

“A política não é o reino da moral, do dever, do amor(...) É o reino das relações de força e da opinião, dos interesses e dos conflitos de interesse. A política ocupa-se do que há de mais complexo e precioso: a vida, o destino, a liberdade dos indivíduos, das coletividades e, doravante da humanidade.”

                                                                                                                          A. Comte-Sponville

É possível diferenciar os conceitos pertencentes à ética e os que pertencem à política. Retirando da frase de A. Comte-Sponville é viável estabelecer a diferenciação. “A política não é o reino da moral, do dever, do amor (...)a vida, o destino, a liberdade dos indivíduos, das coletividades e, doravante da humanidade.” Enquanto a conceção política é: “É o reino das relações de força e da opinião, dos interesses e dos conflitos de interesse.”

A palavra “política”, deriva de pólis que na Grécia Antiga era a cidade-estado, uma cidade com organização e virada para a gestão da vida política. A política questiona-se: “Como viver num espaço público? “Como conciliar a liberdade individual com a dos outros?”; “Como conciliar os interesses individuais dos coletivos?”. Podemos, assim, afirmar que a política é a gestão da República, isto é, a gestão da rés-pública, coisa pública. A política desempenha um papel fundamental na sociedade, uma vez que é necessário organizar a vivência social, harmonizar os interesses e gerir os conflitos de modo a alcançar um bem comum.

                Os políticos encontram-se no parlamento, constantemente a discutir ideias para que haja um desenvolvimento social e económico, de um país. Uma sociedade anarquista seria uma sociedade sem rumo nem ordem, pois todos teriam o livre-arbítrio de decidir o que fazer, assim destabilizando terceiros. Deste modo, a política é um “estabilizador” de ideias e comportamentos, onde a opinião deverá ser dada – “É o reino das relações de força e da opinião, dos interesses e dos conflitos de interesse.”

A política é uma organização de poder com vista à manutenção do equilíbrio social, é a “arrumação” da casa exterior do Homem. Por outro lado, a ética é o alicerce para que uma sociedade justa. A ética poderá também ser a definida por “arrumação” da casa interior do Homem. Estes dois conceitos têm de estabelecer uma relação, de forma a criar um conjunto organizado politicamente e eticamente. Como podemos ler no pequeno excerto, acima mencionado, a política ocupa-se da ética, visto que – “A política ocupa-se do que há de mais complexo e precioso: a vida, o destino, a liberdade dos indivíduos, das coletividades e, doravante da humanidade.”

 

“Para nós, o objeto primário da justiça é a estrutura básica da sociedade, ou, mais exatamente, a forma pela qual as instituições sociais mais importantes distribuem os direitos e os deveres fundamentais e determinam a divisão dos benefícios da cooperação da sociedade(...) Na posição original, os princípios da justiça são escolhidos a coberto de um véu de ignorância.”

J. Rawles

                A “posição original” e o “véu da ignorância” fazem parte de uma situação fictícia/imaginária. Nesta situação, na “posição original”, encontra-se um indivíduo e os restantes, são cidadãos livres, iguais e racionais. Estes indivíduos estão cobertos pelo “véu da ignorância”, ou seja, têm total desconhecimento da sua “lotaria socioeconómica e natural.” Este “véu da ignorância”, permite eliminar o autofavorecimento e garantir imparcialidade da escolha dos princípios da justiça.

                Na teoria de Rawles, existem 3 princípios. O primeiro é o da liberdade compatível e igual para todos, isto é, garantir as liberdades básicas tais como, a liberdade de expressão na religião, política e direito à propriedade. O segundo é o da igualdade ou oportunidade justa, para todos. O terceiro e último é o princípio da diferença, este admite desigualdades socioeconómicas e, através do respeito à diferença, pretende corrigir as assimetrias sociais, dando assim espaço para todos.

                Robert Nozick irá criticar um dos princípios de justiça de Rawles – a diferença. Irá referir que o princípio é uma “conceção padronizada da justiça”. Imaginemos uma sociedade em que os bens e riquezas são igualmente distribuídos por todos – seria uma situação instável, fazendo com que o Estado tivesse de interferir contínua e sistematicamente pela cobrança de impostos. Para Nozick este ideal é eticamente errado, respeitar a liberdade do outro é também respeitar o direito à mesma.

                Rawles, caracteriza-se por um ser pensador que favorece a equidade e também por um liberal com tendências igualitaristas. Devido à equidade que empregaria, Rawles tentaria balançar uma sociedade desigual com direitos iguais.

 

 

 

 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Voces Paginarum

Apesar da contemplação silenciosa e solitária da palavra escrita ser tão familiar para nós, nem sempre foi este o caso. 

Partimos da tradição oral — por exemplo, a cultura inca peruana conquistou e governou um poderoso império sem o apoio da escrita (tinham um sistema de mensagens através de nós em cordas ou quipus).

Já na Europa, no início da Idade Média, ler era um acto público — falado dentro da comunidade. Lia-se na missa, e a palavra era associada à voz de Deus. Santo Agostinho registou nas suas Confissões que, chegando a Milão no sec. IV, observou as práticas de leitura de Ambrósio, o Bispo da cidade na altura. Para o desânimo de Agostinho, Ambrósio lia sem fazer barulho. Apesar dos seus olhos seguirem o texto, a sua voz e língua estavam em silêncio. Santo Agostinho presumiu que Ambrósio estaria a preservar a sua voz, que era usada frequentemente e estaria rouca.   

O hábito seria os leitores monásticos seguirem o texto tanto com os olhos como com os lábios, pronunciando ou murmurando o som da palavra à medida que prosseguiam. Os sons que chegavam eram conhecidos como voces paginarum, as “vozes das páginas”. Quanto mais liam, mais se enchiam as suas cabeças de coros dessas vozes.   

Com a industrialização da prensa, esta voz foi-se perdendo e foi entrando o silêncio da linguagem escrita com a nossa habituação à palavra escrita. O leitor de hoje em dia, acostumado a pensar no som como um fenómeno puramente físico, é inclinado a ver estas vozes como frutos da imaginação. Claro, elas não existem mesmo. O que existe são as imagens do som da voz — a sua substância física — e o seu ideal na mente. É interessante pensar que esta divisão entre a materialidade do som — a sua substância física — e a sua representação ideal, são construções modernas muito bem definidas por Saussure. 

A questão seria: será que o clérigo medieval ao seguir as escrituras na página, seguindo com os seus olhos e murmurando ao mesmo tempo, não estaria a sua mente igualmente inundada de vozes se as palavras lhe tivessem sido lidas? 

No entanto, ele só ouve as palavras porque já as ouviu antes — cantadas ou faladas — e essa reiteração deixou marcas na consciência aural e muscular. Ler, então, não seria apenas ouvir, mas lembrar. Se a escrita fala, fá-lo com as vozes do passado, as quais o leitor ouve como se existisse no meio delas.


Bibliografia:

INGOLD, Tim - Lines: A Brief History. Milton Park, 2007.